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21/09/2021 21:24
Política
Personagem de 'Vidas secas' é citado por Renan na CPI ao criticar ministro
'Diante do patrão, fala fino, obedece, é puro servilismo e se borra de medo do Soldado Amarelo. Aqui, do Capitão Amarelo', disse o senador nesta terça ao falar do depoente da vez, o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário.
/ Reprodução

"Eu não quero fazer nenhuma comparação com ninguém. Mas, há pouco, eu estava fazendo um esforço aqui para lembrar o Fabiano, que é um personagem do livro 'Vidas secas', do Graciliano Ramos. "O comentário foi feito nesta terça-feira (21) na CPI da Covid pelo relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), e tinha como alvo o depoente da vez: ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário.

 

Renan justificou: "Dentro de casa, Fabiano grita, xinga, bate na mulher, nos filhos e até na cachorra Baleia. Mas, diante do patrão, fala fino, obedece, é puro servilismo e se borra de medo do Soldado Amarelo. Aqui, do Capitão Amarelo [...]. É assim: para o desamparado, para o estado, para o município, ele ruge e rosna; para o poderoso, mia e abana a cauda". Rosário, na sequência, reclamou da analogia.

 

Publicado em 1938 por Graciliano Ramos (1898-1953), alagoano como Renan, "Vidas secas" é um clássico da literatura brasileira e um clássico das obrigatórias sinopses de livros didáticos e apostilas pré-vestibulares. É aquilo: muita gente conhece a história de cor – mesmo sem ter nunca pegado a obra na mão (até porque virou um célebre filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos).


Mas e o Fabiano? Em sua primeira aparição na história, chama de "condenado do diabo" um filho que estava chorando e depois bate no menino com a bainha da faca. Em outro trecho, é descrito assim: "Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia [autoridades]".
 


Resumo da ópera em "Vidas secas", que originalmente saiu como uma série de contos vendidos por Graciliano Ramos para se sustentar depois de ter saído da cadeia (leia mais abaixo): uma família miserável vive (ou sobrevive) em andanças pelo sertão, em fuga permanente da estiagem.

 

Tem o pai, a mãe, dois filhos e a cachorra mais famosa da nossa literatura, a Baleia. O pai é o Fabiano mencionado ali em cima pelo Renan Calheiros. O personagem é um vaqueiro bruto e silencioso. E que toma uma surra violentíssima do tal Soldado Amarelo, seu rival na trama.

 

É uma humilhação física e uma sujeição psicológica torturante – e cometidas por uma "autoridade" (assim, entre aspas, porque o termo significa muita coisa).

 

Na sessão desta terça na CPI, Renan Calheiros achou certo mudar a patente de soldado para "capitão", no que parece ser uma referência ao presidente Jair Bolsonaro. Vale lembrar que o depoimento de Rosário mais tarde virou tumulto, quando ele chamou a senadora Simone Tebet de "descontrolada".

 

O ministro fez o comentário após a parlamentar ter criticado a postura dele em relação a Bolsonaro e ao processo de compra pelo governo federal da vacina Covaxin. A senadora tinha acabado de afirmar que "a CGU não foi criada para ser órgão de defesa de ninguém", uma sugestão de que Rosário atuaria para atender a interesses do presidente.

 


"Temos um controlador que passa pano, deixa as coisas acontecerem", disse ela, para quem o ministro não pode se comportar como "advogado do governo".

 

Livro (e autor) político


Voltando a "Vidas secas", não dá para escapar do evidente componente político da obra de Graciliano Ramos, ele que entre 1928 e 1930 foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL) e também se filiou ao Partido Comunista (chegou a ser preso, em 1936, acusado de conspiração contra o governo de Getúlio Vargas).

 

Sobre essas relações, falou o curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2013, Miguel Conde – aquela edição teve justamente Graciliano como homenageado.

 

Para Conde, o escritor se ocupava "diretamente nos livros desse lugar problemático do intelectual e do artista num país em que o 'letramento' pode se tornar muitas vezes uma maneira de reiterar e marcar a divisão do Brasil".

 

Essa conduta se revelava num texto que era tudo, menos empolado e excessivo. "A própria escrita concisa e irônica do Graciliano tem algo de uma recusa de certo virtuosismo mais rebuscado da linguagem. Porque a linguagem pode se tornar, na verdade, um bem simbólico que reafirma – em vez de questionar – as divisões e as desigualdades do país", avaliou o curador.

 

Quer dizer: tem gente de "classe" superior que fala e escreve "difícil" para reiterar determinada posição social e econômica. Ou por ter acesso a uma instrução negada a outros grupos. Graciliano Ramos buscava aparência de simplicidade precisamente para evitar contribuir com a manutenção desse cenário de desigualdade (e de corrupção) – e para questioná-lo.

 

 

 

Fonte: g1

 

 

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