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SAÚDE E ESPIRITUALIDADE / Victor Oliveira

Quem é Victor Oliveira? Victor Fellipe Silva de Oliveira, nascido em Palmeira dos Índios/AL, filho de Jorge Tenório de Oliveira e Tânia Maria Silva de Oliveira, é professor, teólogo e enfermeiro. Escreve artigos de opinião especialmente sobre Saúde e Espiritualidade para o F5 AL
09/09/2023 15:40:42
O sentido da espiritualidade e da oração de Jesus Cristo
Jesus orando / Cena do Filme "A paixão de Cristo" (2004), dirigido por Mel Gibson.

No texto anterior, "Jesus histórico ou Cristo da fé?", nós fomos impulsionados por reflexões sobre a comunhão da Santíssima Trindade e os seus reflexos na espiritualidade de Jesus e da comunidade cristã. Fizemos um exercício importante por meio da Teologia e também da História. Ambas compareceram caminhando juntas, uma associada à outra, para expressar que o Deus revelado por Jesus Cristo é o Deus que constitui a história do povo. Nesse sentido, ao reconhecermos a Revelação de Deus na história, nós estabelecemos com Ele uma relação de espiritualidade encarnada, isto é, uma condição que tem a história como lugar teológico, lugar no qual se expressa a relação de intimidade entre Deus e o seu povo e vice-versa.


Para o povo cristão, herdeiro do testemunho de Jesus que “se fez carne e habitou entre nós” (cf. Jo 1, 14), a eternidade é o seu ponto de chegada, de culminância, onde a vida assumirá a sua dimensão última, no seio celestial, lugar de comunhão total e infinita. Vale dizer que antes de chegarmos à eternidade, antes da comunhão celestial, devemos passar pela experiência da existência histórica, mas não devemos passar de qualquer modo pela história, é preciso desenvolver o melhor que se pode durante o percurso da existência: é preciso estabelecer uma comunhão terreal. Para isso, nós temos a espiritualidade cristã, que não é apenas uma opção pontual que se faz aqui e ali, mas uma condição que se assume na concretude da realidade. Ao fazermos isso, assumimos a espiritualidade de Jesus Cristo, espiritualidade esta que é sinônimo de intimidade com Deus através dos caminhos da vida.


Tem sido muito comum ao longo da história, até por dentro do Cristianismo, pessoas que querem se desprender do mundo (como se isso fosse possível), para desenvolver uma “experiência espiritual”. No tempo de Jesus também era assim, a exemplo dos Essênios (um povo que praticava um modo de espiritualidade desencarnada da realidade por meio de que se fazia questão de se afastar do mundo para poder se aproximar de Deus). Foi através de escavações arqueológicas que descobriram em um lugar chamado Qumran, na Cisjordânia (a 22 quilômetros de Jerusalém), um ambiente usado como habitação por alguns povos e entre estes provavelmente estavam os Essênios. Qumran é um lugar desértico e quem habitava ali o fazia a partir da crença de que Deus viria do deserto. Tanto para os Essênios quanto para alguns homens e mulheres da atualidade, a "verdadeira espiritualidade" está localizada na "geografia celestial" (ou em algum lugar que os aproxime disso) e quanto mais estiverem distantes do mundo tanto mais santos e santas serão.


No entanto, não foi essa a espiritualidade que Jesus viveu e ensinou aos seus discípulos e discípulas que o acompanharam durante o tempo em que esteve com eles e elas. A espiritualidade vivida e ensinada por Jesus combina céu e terra e localiza os dois na "geografia existencial". A espiritualidade de Jesus não se dá na quietude do deserto ou no sossego dos templos, ela se desenvolve na rotina do dia a dia, nos desafios do cotidiano e nas turbulências da vida. A espiritualidade vivida e ensinada por Jesus o levou até as últimas consequências da sua vida e mesmo nestas Jesus conseguiu reforçar a sua espiritualidade para fortalecer a sua relação de intimidade com Deus (cf. Mt 26, 39; Mc 14, 36; Lc 22, 42 – "afasta de mim esse cálice, mas seja feita a tua vontade"). A espiritualidade vivida e ensinada por Jesus satisfaz as necessidades do espírito e do corpo, sacia a fome de Deus e a fome de justiça, ela é uma condição assumida por Jesus que o faz recorrer a Deus para chamá-lo de Abba¸ que significa “Paizinho”, e, em seguida, pedir a Ele o pão de cada dia para que seja distribuído a todos e a todas. A espiritualidade vivida e ensinada por Jesus destaca a santidade de Deus e recorre a Ele para que nos perdoe das nossas limitações que são marcadas pelo pecado de ofender uns aos outros, de sermos indiferentes às dores dos outros, de tratá-los com distinção, preconceito, arrogância, prepotência, enfim, quando caímos na tentação de nos acharmos puros e melhores que os outros e mais dignos de ter uma relação íntima com Deus.


Em 1977, um teólogo dominicano chamado Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, lançou um livro publicado pela Editora Civilização Brasileira chamado “Oração na ação”, onde ele registra reflexões importantíssimas, a exemplo da seguinte: “A oração cristã não é uma fuga, um consolo, um deleite, uma diversão ou um ópio. Não pode ser avaliada apenas pelas nossas sensações interiores, e muito menos pelo prazer que dá ao nosso ego. A oração cristã volta-se para os problemas do povo e associa o reconhecimento da santidade de Deus à súplica que é promessa e projeto: venha a nós o vosso reino” (FREI BETTO, 1977, p. 42). Os discípulos e as discípulas de Jesus admiravam a espiritualidade dele e o modo como ele se conectava a Deus por meio de algo muito estimado por Jesus: a oração. É tanto que o evangelista Lucas registra uma passagem (cf. Lc 11, 1-4) que mostra um dos discípulos de Jesus perguntando como orar e Jesus respondendo assim: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu Nome; venha o teu Reino; o pão nosso cotidiano dá-nos a cada dia; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair na tentação”.


Por sua vez, o evangelista Mateus amplia o que diz Jesus, destacando assim: “Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o teu Nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade na terra, como no céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos submetas à tentação, mas livra-nos do Maligno” (cf. Mt 6, 9-13). Observemos um aspecto registrado por Mateus: antes de narrar Jesus ensinando a orar, o evangelista tem o cuidado de registrar Jesus fazendo uma exortação (cf. Mt 6, 7-8): “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes”. Isso nos mostra que é preciso ter consciência a respeito da oração e do modo como fazê-la. Lembremos que a oração cristã é aquela que nos move para a comunhão com Deus e com os nossos irmãos.


De quantas orações, nós, cristãos e cristãs, precisamos para expressar os ensinamentos de Jesus? Nós temos com a oração uma relação objetiva semelhante à objetividade dos ensinamentos de Jesus sobre a oração? Qual o poder da oração em nossas vidas e para que ela nos serve? Podemos ter certeza de que nós compreendemos o sentido da espiritualidade e da oração de Jesus? Hoje, estamos próximos ou distantes desse sentido? Quando perguntado por um de seus discípulos sobre o modo de se fazer uma boa oração, Jesus ofereceu o Pai nosso e com isso ele dá intensidade à sua espiritualidade que se verifica através da relação que estabelece com Deus e com o povo. Portanto, o cristão e a cristã que compreenderem o sentido do Pai nosso, compreenderam o sentido da espiritualidade e da oração de Jesus, ambas profundamente conectadas com a realidade por meio da qual o divino irrompe na existência.

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Victor Oliveira